Chatice
"Opa cara, tem uma mosca na sua orelha, deixa eu matar ela"

"Opa cara, tem uma mosca na sua orelha, deixa eu matar ela"

Bombons

Era uma sexta-feira nublada, por volta de 19:00. Eu tinha saído do trabalho e estava no shopping. Eu gosto muito de lá, o Botafogo Praia Shopping, e também do café do Starbucks que tem lá. Estava indo direto para o Starbucks, que fica no terceiro andar. Passei pela escada que descia para a Loja Americanas, que fica no subsolo, pensei em comprar algo a mais lá para comer com o café, já que estava com fome. Voltei e desci pela escada. Lá dentro eu estava procurando algo gostoso e que combinasse com um bom café. Pensei em uns cookies de chocolate e fui procurar eles. Passando por vários corredores eu o achei, peguei e fui ao caixa para pagar. Chegando ao pequeno corredor da fila do caixa, que tinha vários produtos dos dois lados, eu vi um homem muito velho na minha frente. Ele parecia ter uns noventa anos. Era corcunda e mantinha a cabeça baixa, tendo que olhar pelo canto dos olhos para enxergar o que estava ao lado dele. Tinha a pele muito enrugada e poucos cabelos brancos e finos. Estava com um suéter azul marinho muito velho e com várias manchas, uma calça social folgada, um tênis bastante gasto e sem meias. Fiquei atrás dele esperando ele seguir a fila. Ele pegava alguns produtos do corredor, via e colocava de volta. Foi nesse momento que eu percebi que ele não estava segurando nada. Eu pensei em perguntar se ele estava mesmo na fila, pois ele estava, mas poderia estar enganado achando que era só mais um dos corredores da loja, mas decidi deixar pra lá e continuei atrás dele. Ele dava passos curtos, quase não saia do lugar, fazendo com que criasse um grande espaço entre ele e a pessoa que estava em sua frente. Continuei atrás dele esperando o que aconteceria quando ele chegasse ao caixa sem nada para pagar. Estava quase chegando à vez dele quando ele viu uns bombons Serenata de Amor que estava no final do corredor. Assim que ele viu, eu percebi os olhos deles expressando uma pequena alegria, como se ele quisesse sorrir, mas o rosto não tivesse forças para fazer isso. Ele pegou um bombom delicadamente com a mão esquerda e colocou na mão direita que estava junta ao corpo, e pegou mais três, um por um, levando todos à mão direita que estava segurando os bombons com ajuda da barriga. Ele sabia exatamente o que queria quando entrou na fila, os bombons. Um dos caixas ficou livre e o velinho seguiu em direção a ele segurando seus bombons com as duas mãos junto ao corpo, com seus curtos passos. Chegando lá, sem dizer nenhuma palavra, ele colocou os bombons em cima do caixa e pegou sua carteira surrada e cheia do que parecia ser vários papeis amassados que davam para ver por fora, pegou uma nota de dez reais e entregou para a moça do caixa que devolveu os bombons dentro de uma sacola plástica junto com o troco. A moça do caixa chamou o próximo que era eu. Eu paguei os cookies que tinha pegado, coloquei na mochila, fui subir a escada e vi o velhinho subindo a escada normal, com muito esforço, segurando o mais firme que podia no corrimão. Cheguei ao primeiro andar quando ele ainda estava chegando na metade da escada. Subi os três andares em direção ao Starbucks, cheguei lá, pedi um café e me sentei. Abri a mochila, tirei os cookies e comi enquanto pensava no que tinha visto. Terminei meu café e desci as escadas. Saí do shopping, o contornei e entrei numa rua por trás dele. Poucos passos depois eu vi esse mesmo velhinho segurando sua sacola plástica com os bombons com uma mão e segurando um molho de chaves com a outra, enquanto tentava acertar o buraco da fechadura da porta de uma casa velha. Eu sempre passava na frente daquela casa e nunca imaginei que alguém morasse lá. Todos que passam na frente dela imaginam que é uma casa abandonada.

Diminui meus passos e o observei entrando na casa e fechando a porta.

Uma coisa tão pequena como uns bombons, que todos comem enquanto navegam na internet, ou depois do almoço, vira algo que faz com que um velhinho tenha um dos seus maiores momentos de alegria. Provavelmente aquele velhinho não tem ninguém para conversar, todos os seus amigos devem ter morrido, assim como sua possível companheira. Não sei se ele tem filhos, ou onde eles estão. Aquele velhinho deve morar naquela casa sozinho, há muito tempo. Talvez ele não tenha ninguém para conversar, talvez ele passe dias sem dizer uma só palavra. O mundo onde ele nasceu não parece ser mais apropriado para ele nesse tempo. Ele pode se sentir perdido, sozinho, mas ele pode ser feliz comendo os seus bombons em sua casa grande e talvez solitária.

O tempo sempre passa e quase todos brincam com ele, como se pudessem controlá-lo. Algo tão pequeno e corriqueiro, como comer um bombom, pode ser um dos poucos momentos de felicidades que teremos num futuro distante.

Esse velhinho nunca vai saber disso, mas me ajudou a perceber que devemos valorizar cada segundo que vivemos. A vida é algo curto, que só percebemos quando estamos no final dela. Talvez por perceber isso aquele velinho deu o valor apropriado para o momento que ele separa para comer seus bombons. Infelizmente ele não pode voltar no tempo e viver com o que ele aprendeu na sua velhice, mas ele pode ajudar a fazer os outros perceberem isso, mesmo sem dizer uma só palavra.

Obrigado, velhinho dos bombons.